quarta-feira, agosto 14, 2013

Entrevista de uma mestranda de História com Carmen Fossari


   


Entrevista Carmen Fossari

                                                              Viviane Cavalcante Pinto


O AMOR
(Carmen Fossari)

Desconcerta o amor os labirintos que caminho,

Inutilmente tateio chãos e os pés retornam ,
Não há caminhos outros.

Escuridões e claros veios de meu ser.
Apenas a palavra cria ramas
me enleio nelas,
E vejo saltar de dentro de meu peito

Uma pequena ave que se afasta,
Lentamente.

Espreito a palavra abstrata
O sabor do querer é o que permanece.
O fogo que me queima é o mesmo
que me salva,
me anula.

Despir a noite, a lua nua
Vestir na aurora as asas de Phoenix
(que me empresta)
As cinzas ainda fumegam...


Ela é atriz, pesquisadora, professora, dramaturga e poeta. Seu amor pela arte é indescritível. Esta grande artista catarinense em entrevista a uma ex aluna de teatro, nos conta  um pouco das suas experiências na vida, teatro e  política.

Com quantos anos você começou a atuar? E de onde veio a inspiração?
Eu comecei a atuar com 14 anos e na verdade eu venho de  uma família de artistas, meu pai era  pintor então eu sempre apreciei a arte. Fui criada  ouvindo poesia, poetas  o espanhol Lorca, chileno  Pablo Neruda. Mas na verdade o que mais me chamou a atenção foi aos quatro anos de idade quando eu vi uma peça de teatro com papel celofane e eu fiquei enlouquecida com aquilo, sabendo que não era fogo, mas  imaginando que era um fogo que não queimava. A partir dalí eu  queria aquele universo do  teatro.  Não sabia exatamente que era teatro, mas aquele universo, entrar naquela casa, aquele escuro que de repente se iluminava e que de repente tinha personagens mágicos, ali foi a minha sedução. Depois aos  14  anos de idade eu fui em busca de curso de teatro.

Sua formação é em teatro?
Não. sou formada em Letras  literatura brasileira, inglês e português primeiro. Meu mestrado é em literatura brasileira em opção de teatro. E eu tenho muito estudo paralelo de  direção teatral, estudei no Rio de Janeiro, cursei disciplinas de  doutorado na USP, e cursos com grandes diretores de teatro do Brasil junto ao projeto Mambembão e  outros. Mas “felizmente” minha formação original não é em teatro. Digo felizmente porque a maioria de cursos  superiores de  teatro tenho severas restrições, embora eu ache que são necessários e eu acredito e torço para que eles melhorem. Mas alguns professores se formam sem ter vivências teatrais e vão lecionar em faculdades sem prática ou amor suficiente ao teatro para compreender a sua complexidade.  E teatro se aprende nos grupos, na formação fazendo teatro. Então é importante a teoria sim, mas é tão importante a teoria quanto a prática. Acho que eu pude me desenvolver  muito em virtude de ter vindo de  vivencias de grupos, teatro estudantil catarinense. Teatro se faz com teoria, mas é necessária a prática constante.

Além de atriz, você também dirige e produz peças?
Primeiro participei de espetáculos como atriz, e então comecei a dirigir espetáculos de poesias. Poesia eu acho que é a ‘mãe’ do teatro. Teatro nasce da poesia, do canto, da dança...Depois de 4, 5 espetáculos atuando eu comecei a dirigir. Mas dirigia num processo de  um grupo muito forte com a vivência teatral, onde todos trabalhavam, era  um cooperativada, era quase que uma direção coletiva. Depois pouco a  pouco eu começo a estudar e aí assumo mais esse  processo da direção. Mas uma coisa paralela a direção, é a produção. E faço outras coisas paralelas pelo lado da literatura como dramaturgia, roteiro pra cinema e coisas assim.
                                                                                                               
Além da sua irmã, Ivana Fossari que é atriz, mais alguém na família?
Eu tenho outra irmã a Dulce que trabalha com teatro de bonecos, tenho  outra  irmã a Rosa, que é artista plástica, meu pai também também era artista plástico e  tenho uma sobrinha que é atriz, a  Lisandra. E acredito vem aí outra geração, os pequeninos que já se  interessam pelo teatro.

Então você é professora, pesquisadora, dramaturga, diretora, atriz e poeta, certo? Mais algum outro talento?
Pelo menos eu tento (risos). Se eu sou tudo isso eu não sei (risos). Eu gosto de origami, cerâmica, alguma coisas de  pintura, desenho clássico...

Totalmente ligada à arte?
É porque na verdade a linguagem da arte é  única. Os instrumentos é que na verdade são diferenciados. Quando você começa a trabalhar muito com a arte, a linguagem é apenas o que codifica que já é anterior. Então a forma de expressar é uma forma de juntar uma linguagem a  outra.

A arte  propicia  um olhar mais sensível à vida?
Mais sensível e mais crítico em relação a vida e as estruturas sociais.

Você já ganhou alguns prêmios devido a seus trabalhos. Conta  um pouco desta experiência.
O primeiro e significativo prêmio foi o primeiro espetáculo que eu dirigi em 1977. Era aluna da universidade ainda, em plena ditadura militar e eu dirigia  um texto de um autor catarinense Clécio Espezim e na época  os grupos ainda riam e questionavam “como é que eu ia dirigir  um texto de  um dramaturgo daqui?”. Achavam que isso era ridículo, que aqui ninguém sabia escrever teatro. Só que eu percebi que era  uma boa dramaturgia e achei que devíamos lutar por  um texto  feito em Santa Catarina. Havia já  um grupo estabelecido na cidade e  a gente, para surpresa minha ganhou melhor espetáculo, melhor direção e já foi para uma curta temporada Rio e  São Paulo, no projeto do Instituto Nacional de Artes Cênicas, o que hoje seria  um órgão ligado ao Ministério da Cultura. Esse foi meu primeiro processo de direção. Evidentemente quando você começa a conhecer  totalmente  o código, tu entras pela sensibilidade.E então decorrido mais de 70 direções, eu olho para trás e eu acho que eu tinha muita ousadia (risos) de dirigir. Eu era  muito jovem e era difícil todo o processo de direção, e às vezes tinha atores que eram mais velhos  ou atores homens que não concordavam muito com o fato de  ter  uma mulher na direção. Por exemplo, quando eu  ia apresentar no TAC e fazia meus projetos de  luz sofria restrições. Eu inclusive já tinha premio de  iluminação porque como eu sempre fui ligada a arte como pintura e estudando desde criança vendo os quadros clássicos, a questão da luz e da sombra era algo muito constante em minhas obras. Eu gosto muito do processo de  iluminação, então sempre me meti nessa área e fazia meus projetos, decidia as cores , efeitos  etc. E quando nessa época chegava nos teatros em Santa Catarina  para fazer a luz, e até mesmo no Rio e  São Paulo, rolava um preconceito de que alguém de Santa Catarina não saberia fazer teatro e meno  ainda iluminação cênica. Isso em 1977, . Eu apresentava meus projetos de  luz dos espetáculos  para  os  iluminadores do TAC e eles  ficavam comentando que era  um absurdo “como que uma mulher ACHA que  pode ficar falando de  luz com a gente?” . 
 No caso eu assinava a iluminação, mas foram anos  muito difíceis. Eram grandes  lutas a cada vez que  se ia fazer  uma nova temporada no TAC. Até que chegou o momento em que isso foi ficando mais calmo e  hoje em dia sou muito amiga de todos eles, e até esses dias comentei com eles isso e riram pelo fato de como eles eram muito machistas e equivocados.

Também era  um momento político complicado, isso influenciou também um pouco a atitude das pessoas.
Sim um momento político complicado em uma cidade que em que arte não contestava frontalmente a oposição. Todos os grupos tinham benefícios governo, todos. Não digo que eles fizessem uma arte “não engajada”, mas eles como um grupo, como identidade tinham benefícios no aspecto geral. E nós, nossos grupos não. Estávamos então sempre em oposição, sempre colocando a “cara a tapa”. Talvez seja   um motivo que até  hoje a direita mal nos engole e a esquerda convive com a gente mais. Mas nós não procuramos  nunca  o afago do poder. Pelo contrário, liberdade é  uma eterna vigilância. (...). Na verdade hoje em santa Catarina temos  ainda pouco público de teatro. Temos grande publico de televisão. Algumas pessoas vão para ver  um ator  global, para ver a “grande tela”. Eu digo que para a maioria Florianopolitana, o teatro é uma “grande tela”. Felizmente  o “boom” de pessoas vindo, especialmente o núcleo que veio de São Paulo, muda  o panorama do nosso público. Começa a ter  um publico que consome o teatro com mais constância. E  isso tem mudado o panorama do nosso publico. A  um tempo atrás era difícil. Nós montamos uma peça da Eglê Malheiros  sobre   Cruz e Sousa,   em trinta anos e foi o espetáculo que teve menos  público. Por quê? Falava sobre  um poeta negro de Desterro, nosso cartaz possuía a imagem de dois atores, um homem e  mulher também negros e lamentavelmente foi o nosso pior  público. E também o Sylvio Back, diretor de cinema deu uma entrevista e disse que  o menor  público para  o filme dele “Cruz e Sousa – o poeta de Desterro” também foi em Florianópolis. Mas acho que isso reflete  um pouco as eleições.   Ainda tem uma geração muito forte, que sobreviveu dos benefícios de  um poder  oligárquico. Eu sinto isso.

Mas não é apenas um problema político.
É uma “cabeça” ainda muito colonizada. Muita coisa se produz aqui em termos de arte e cultura, mas que  por vezes é “negado” por algumas pessoas daqui. Não por todos, claro. No geral, o Augusto Boal falava muito isso. “Que a elite brasileira, odeia a arte brasileira”. Existem artistas brasileiros  que ganham amplitude devido o sucesso que adquiriu em outro país. Algumas pessoas acham bacana a Broadway, reproduzir peças de lá mas por vezes se esquecem da arte brasileira, da arte local. Essa seria a burguesia segundo Augusto Boal. Mas acho que compete aos artistas apresentar trabalhos com qualidade, com criatividade, e romper suas barreiras. Eu pelo menos tenho esse desafio, de querer atingir o público como um todo.  Desde  o mais oprimidos que é  pra quem eu mais gosto de fazer teatro, mas também gente de  uma maneira geral. E que tem que serem tocados de  uma maneira diferenciada, procurando sempre valorizar o retorno aos valores humanos.

Você apresentou seus trabalhos em outros países?
Já. Eu falo que uma segunda pátria é  o Chile. Chile, México, Uyuguay, Paraguai, Colombia, Porto Rico e Portugal (Açores) e Argentina.  A  minha paixão pelo Chile começou desde os tempos de Violeta Parra e Salvador Allende. Depois disso eu tive a a oportunidade de  ir  a um encontro de teatro lá, e acho que já fizemos  umas 14 ou 15 peças que foram para  Chile. E sempre com temporadas. Fizemos  um grande circuito lá  com uma obra sobre Pablo Neruda onde resgatei o processo dele enquanto ditadura do Pinochet. Este  por sua vez,  mandou que os livros de Neruda fossem queimados, e nas salas de aula alguns professores fechavam as  portas e decoravam os poemas do Neruda com os alunos. Então essas coisas todas coloquei numa peça e retornei ao Chile com isso. E foi emocionante  porque a gente fazia em “portunhol”, sabíamos falar muito bem o idioma,  e a plateia inteira citou Pablo Neruda com a gente. Foi uma emoção.

Então a recepção foi boa?
Foi maravilhosa. Tive a a oportunidade em trabalhar em Porto Rico, de fazer uma adaptação livre de Romeu e Julieta rápida com os alunos de lá, e ao invés dos montecchios, as famílias eram americanas e um a favor da possessão e  outra contra a libertária. Depois trabalhei no México e ali, nos apresentamos em vários pontos de Chiapas. Eu fui com cerca de 80 artistas  internacionais, fomos em três pessoas do grupo de teatro novo. Nós fomos a um festival no México e de lá fomos convidados a integrar uma caravana de  80 artistas  internacionais pela paz, em apoio aos  índios que haviam feito tomada de terra em Chiapas. E  o que eu vi lá...se eu não gostava  do império norte-americano, eu  fiquei mais horrorizada ainda. Porque a estivemos em fazendas em Chiapas, onde  crianças tomavam água de  um rio com possibilidades de cólera. Por  outro lado, existia  um bosque imenso fechado, com toda a água da região colocada para lavoura da laranja, para produção dos sucos norte-americanos. Os indígenas estavam numa luta constante para tomar essas terras. Embora eu seja uma mulher militante de esquerda, cada vez mais eu sou contra a luta armada por vários motivos. Eu não acho que  hoje, que quem tome algo com o poder da arma, vá olhar o outro como igual. Eu não acredito nisso e quando estive nessa missão pela paz em Chiapas, pude constatar isso de perto também. Mas naquele  momento ali não tinha  outra solução para os indígenas, tinha de ser feito daquela forma, com armas. Eu compreendi o processo e falei  pra eles que eu sou contra, mas que mesmo assim eu respeitava historicamente a atitude deles. Essa situação ocorreu em 1997.


Você trabalha no DAC/UFSC (Departamento Artístico Cultural da UFSC), qual é a sua função exatamente?
Eu fiz  um concurso para diretora de espetáculos. Então minha função é essa. Só que para dirigir um espetáculo, você tem que ter elenco né? (risos) então a gente trabalha com formação e eu também  pesquisa teatral. Eu falo que não dá para ter somente teoria, mas eu amo profundamente pesquisar teatro. Então a gente trabalha com a oficina semestral  de  formação de atores, e se eles fizerem determinado números de  semestres, eles se profissionalizam enquanto atores e atrizes em nível técnico. Eu acho que é  uma coisa bacana porque oferece para a comunidade e  universidade a instrumentalização de atores no nível de formação. A partir dessa oficina são feitas várias montagens com os alunos, leituras dramáticas, apresentações. Onde é trabalhada todas as linguagens, desde teatro de  luz negra, de bonecos, teatro de rua, teatro de clássicos, contos catarinenses adaptados, os clássicos universais e  outros. Atualmente tem o curso de artes cênicas na UFSC e alguns alunos já vieram fazer  oficinas com a gente, já montei espetáculos de  alunos da graduação com alunos da oficina. Agora vamos estrear um Hamlet in Quarto que é uma tradução do professor  de letras inglês, Dr. José R.Oshea. Mas estamos fazendo o espetáculo segundo a cultura oriental, em teatro japonês Kabuki. Isso é  um “samba pra doido’ como eu falo (risos) porque já estou a três anos neste projeto e  a gente estreia agora em novembro.

Mas  os alunos da arte cênicas utilizam o espaço do teatro para as aulas  ou  possuem um espaço próprio?
Nós  utilizamos  o teatro  , damos aulas na sala 1 e igrejinha. O teatro é usado de sextas a domingos para as comunidades externas, onde as pessoas solicitam o espaço com um edital. Então o curso de cênicas, nós,  como qualquer  outro grupo de teatro, para utilizar o teatro da universidade tem um processo de pauta. Então eles já utilizaram bastantes, já fizeram montagem, apresentações, e etc., mas nós não utilizamos este espaço como sala de aula regular. Porque seria algo que descaracterizaria  a função do teatro.

Você comentou que já produziu coisas para  o cinema, e a sua participação no filme “As procuradas” (2004) como foi?

Eu participei somente com atriz. Fiz  uma colaboração com meu colega do DAC, o Zeca Pires [Diretor do filme]. Mas tenho sim alguns roteiros inéditos que escrevi. Mas participei de alguns documentários, ajudei no roteiro do média-metragem “Alma serrana”de Penna filho. Tem outro que estou realizando com o Zeca Pires,  e assim...trabalhando!

Você se dedica muito a valorização da literatura catarinense. Quais adaptações você já fez?
Já adaptamos Harry Laus,  Flávio José Cardoso, Almir José caldeira, Eglê Malheiros, Lindolf Bell, Alcides Buss e seus poemas. São muitos escritores e não me ocorre mais nomes agora. Mas sempre temos esta  preocupação sim. Mas ao mesmo tempo, não podemos ficar restritos.  Na arte não cabe  o sectarismo.

Mas se torna importante esta valorização, em detrimento da função do DAC né?
É verdade. Em trazer os nossos artistas. A gente faz fez ciclo de dramaturgia dramática com o dramaturgo Márlio Silva, e esse ano nossos alunos vão no final do ano ler  o premiado Amilcar Neves, que  lançou um livro que vamos ler dramaticamente, porque é fundamental incentivar nossos artistas.

Você comentou sobre  o teatro de sombras. É  um tipo de espetáculo mais sensível que requer maiores percepções e que nem todos conhecem. Qual a sua importância?
Eu acho que todas as  linguagens do teatro são importantes. O de sombras, de bonecos, luz negra e etc.  acho que é  um  tipo de coisa que resgata  uma sensibilidade que está  no inconsciente das pessoas. Até  porque  usualmente quando falta luz e a pessoa tem uma vela acesa em casa, normalmente acaba num teatro de sombras. Não tem como não brincar com ela numa situação dessas, não é? Eu me lembro de quando era pequena e colocava  um vela e começava a fazer gestos e então os personagens surgiam, as brincadeiras. É  uma coisa que remonta  um consciente coletivo das pessoas. E eu acho muito interessante essa coisa de  entre a luz e sombra, é uma metáfora da vida.

No cinema se trabalha em busca de  uma determinada recepção para  os filmes. E no teatro? Como que funciona  o processo de recepção do público?

Quando eu produzo, sempre penso no público. E o público inclusive  é  o último ator, o mais  importante. O espetáculo só fica  pronto depois de 10 apresentações. Porque é  o tempo do público interagir, de sentir.  Mas em alguns  momentos você especifica  o público. Agora  por exemplo estamos com o teatro de rua junto com a oficina  que é cenas de ruas e Franklin Cascaes e Flávio José Cardoso adaptados para  o teatro de rua. Então quando se vai para rua e apresenta nas calçadas, acaba que  o publico é bem dirigido. Quando a gente fez “As luas de Galileu Galilei”  com 3 linguagens distintas ( popular, erudita e histórica), a gente fez 3 meses de  temporadas em que a partir do momento em que se distribuía os ingressos, poucos  minutos  depois já não tinha mais ingresso. E tivemos  um público super eclético.  É disso que gostamos de pessoas desde as ditas mais “cultas” aos que estão ali pela primeira vez. Isso é  muito bacana, quando se consegue atingir a totalidade de público.

Tem algum espetáculo favorito que você  produziu?
Tem muitos para serem produzidos ainda. Eu gosto muito de alguns. O primeiro que ganhei premio de dramaturgia, “Terra de Terrara” que eu falo a questão agrária  no Brasil em 1980, é bem mágico com bonecos e seres humanos onde bonecos viram pessoas lutando pela terra. Esse é meu xodozinho porque foi o que ganhei o primeiro prêmio nacional de dramaturgia.  Mas acho que talvez  os trabalhos mais  ousados, eu citaria “Mamas de Tirésia de Guilhomme Apolinaire” que é  o pai do surrealismo francês. E a gente fez  loucuras  no palco.

É  o surrealismo de fato tem suas excentricidades.
Para ter ideia, era em tempos de ditadura e  nós colocamos  no palco em tamanho de   8 metros por 9, toda a  obra de Guernica, com o teatro de sombras. Remontamos Guernica, trabalho belíssimo de artes plásticas da Albaneza Fogaça, colega aqui do DAC na época e recortou toda a obra do Guernica em pedaços enormes e trabalhos em sombra. Guernica fala da Guerra Civil Espanhola, e estávamos em processo de ditadura. A obra tinha  uma figura de  um olho com a lâmpada e figuras distorcidas e foi um trabalho fantástico, o “terra de terrara”. Isso foi em 1982. Um espetáculo belíssimo e muito forte. Os artistas plásticos ficaram encantados.

Recentemente você foi a são Paulo lançar um livro. Fala  um pouco deste trabalho.
Meu segundo livro de poesias [nome do livro “Lua, Palavra Nua” e  o primeiro foi o “Heresia”], lancei na Bienal que foi uma felicidade muito grande Ainda não foi lançado aqui, estou vendo algumas possibilidades. Mas quem fez  o prefácio desse livro foi o dramaturgo Romário José Borelli. ele é autor da peça catarinense mais encenada no Brasil, que é sobre a Guerra do Contestado. Quando ele era mais jovem ele foi músico de  um importante movimento no Brasil, o teatro de Arena como músico do Augusto Boal . Conheci ele quando fundamos o teatro de arena em Santa Catarina. Era  no antigo trapiche, onde a gente transformou usando nossas mesas e outras coisas, trabalhando com mão de  obra mesmo. Eu deveria ter  uns 15 anos e a gente criou o teatro de Arena de Santa Catarina. E nessa época  o Boal veio pra cá dirigir  o grupo Armação e a peça dele era sobre  o Contestado. E eu olhava pra ele sempre como um ídolo, não participei deste espetáculo mas anos depois  nos tornamos amigos e então ele faz  o prefácio do livro e diz que sente  que este  livro tem um pouco de uma geração que  lutou politicamente, como sentinela da América Latina. É um pouco isso, porque tem um pouco de tudo como temas  políticos da América Latina, questões bem líricas mesmo e romances amorosos, porque sem amor não se faz nada! (risos) Até  porque fazer  teatro sem estar apaixonado não tem como. Sem amar e sofrer por amor não se faz nada na vida (risos).

São Poesias?
Sim, livro de poesias. Tem poesias mais  políticas, metafísicas, amorosas, líricas, um pouquinho de tudo.

E de  onde vem tanta inspiração? Porque não é simples fazer poesia...
É a necessidade de se comunicar né? (risos). Mas é verdade não é fácil e meus poemas são longos, são páginas e páginas...são sei se é inspiração, ou transpiração sabe? (risos)

Pode falar dos trabalhos atuais que está produzindo no DAC?
Um já comentei Hamlet in Quarto e  o outro é  o teatro de rua. Mas agente tem se dedicado bastante  ao Hamlet.

E quem está neste espetáculo? Os alunos do DAC?

Eu trabalho com o grupo permanente de  teatro e dirijo o Grupo de Pesquisa de Teatro Novo . Este  último é  um grupo permanente que aos  poucos agrega alunos novos da UFSC. Então os melhores alunos da oficina, aqueles que estudam por mais tempo , que estão mais voltados para  o teatro, eles automaticamente vão entrando no grupo de pesquisa e eventualmente a gente convida alunos da comunidade, do curso de Cênicas ou UDESC. Mas nosso objetivo e  compromisso fundamental é a linguagem teatral e apresentar um processo inteiro de  linguagem teatral. Então nesse caso estamos estudando teatro oriental, kabuki. Claro que leva  um tempo para se estudar e absorver toda essa história, mas pelos ensaios o espetáculo está bem bonito.  O último Xogunato no Japão que durou mais de duzentos anos, teve inicio no ano de 1603, o mesmo ano que na Inglaterra William Shakespeare, escrevia Hamlet In Quarto, um texto mesclando prosa e verso privilegiando as marcações da encenação, mais do que a linguagem lírica. Uma obra de arte quando não estreou, é  uma grande  interrogação. Pode ser que a gente tenha acertado completamente  ou pode ser que  o público não compreenda. Eu acredito que com a experiência teatral, que as pessoas vão celebrar como uma cerimônia teatral mesmo.

A Carmen em números: Quantas peças já atuou?
Acho que mais de 50 peças.

E quantas produziu?
Creio  que   80 as vezes 4 num ano.

E se for pensar em quantos

estudante passaram pelas oficinas que você  ministra no DAC, independente dos que seguiriam ouu nãio com o teatro, tem como calcular um número?
Acho que mais de 3 mil alunos. Mas  o importante pra gente é a filosofia da oficina “como ser para representar outro ser” . Os dois primeiros semestres a ideia é sensibilizar as pessoas para serem seres  humanos mais completos, se reconhecer na arte e consumi-la. A partir daí, quem continuar é  um lucro para a arte. Então temos dois objetivos: um é sensibilizar alunos, pessoas da comunidade e   outro é transformar atores. Elas podem em determinado momento da vida “estarem atores, atrizes” mas não significa que irão seguir isso para  o resto da vida. E tendo uma experiência de arte, torna elas diferentes para  o resto da vida.


É possível viver  do teatro?
Da bilheteria do teatro é difícil. Agora do teatro junto com atividades teatrais sim. Dando aulas, fazendo assessoria, trabalhando em ONGs e coisas assim. Nesse sentido é possível sim.

E alguma dica para quem quer começar?
Sim. Amar e procurar a arte. Não desistir  nunca dos sonhos, se quiser vale a pena.


Para saber mais sobre os trabalhos e espetáculos da atriz:

Para saber maiores informações sobre os espetáculos e oficinas do DAC/UFSC:

Um comentário:

Graça Carneiro disse...

Carmem Fossari seu riso é pura poesia que soa vibrante por todos os cantos e percorre a alma da gente enchendo de alegria o lugar. Sua fã Graça Carneiro. Abs.