domingo, janeiro 03, 2010

O que fica de nossos passos




O que fica de nossos passos

Carmen Lúcia Fossari

A vida tão breve
Voamos quando deveríamos caminhar
E às vezes paradas na estrada
Deveríamos apenas atravessar uma rua
Mas os cruzamentos
Nos traem e atônitas
Já não sabemos o sentido da direção
Da mão que amparou e se afasta
Do abraço amigo que se reteve
Antes de percebermos
Que o outro, pode ser às vezes tão difícil como
Atravessar uma avenida com quatro pistas
E duas mãos
Longe da sinaleira
No horário do rush
Carros odeiam transeuntes
Dentro deles
Os mesmos tropeçados pés

O caminho até o outro às vezes
É mais difícil do que
Seguir dias e noites a caminhar
O outro nos surpreende
Com o seu melhor que nos encanta
E com o seu pior que nos fere
E quando a dor nos alcança
Dói a ausência do outro
Aquele que um dia amparou

Mas o que fica dos nossos passos?

O tropeço nosso esquecemos breve,
Talvez quando esquecemos o tropeço do outro,
Quando seu passo deveria chegar-nos
E se vai
Talvez neste momento
O perdão faça do instante breve da vida
Um momento eterno de amor...

5 comentários:

Manuel da Rosalina disse...

Carmen, belíssimo poema; as grandes interrogações da alma perante o caminho da vida, e o(s) caminhante(s)!…
Quando li o seu poema, lembrei-me de um que escrevi, em que de outra maneira também questiono a complexa caminhada da existência; conflito permanente de um Ego, que deve dar lugar a um EU.

Parabéns!

Bjs,

jj



Tudo (de)corre
nas profundezas
de mim;
um palco
onde me represento.
Tudo o resto
é mera ficção.

Em esforço
materializo,
e constantemente
me tento
e me repito,
e erro,
existo...

E construo-me
a todo o momento
em caminho,
ao Eu que tão sabiamente
me espera.

joão m. jacinto

CARMEN FOSSARI disse...

Os versos que o Menino do Montijo aviva de sua lavra, é muito belo, e a referência da representação de um ser sobre si mesm@ é de muita profundidade.

Construimos totens de crenças e de descrenças e nos alicercamos na busca de representarmos nosso ser nas identidadese ou rejeição delas, mas muitas vezes os dogmas cegam, e fazem um srer viver a vida interia sobre a mesma formatação ou mapa que se lhe apregoa ,e no entanto apenas o inusitado e a dúvida diante das absolutas certezas deveriam confortar nosso ser vivente e por tanto em movimento contínuo de construção e desconstrução.
Bendito o Poema que se permite mergulhar ao inusitado!!!
Parabéns João, e obrigada por sua vinda ao Armazém.

ABRAÇO POEMA
carmen

João Marques Jacinto disse...

Por vezes construímos, desconstruindo e… nos elevamos pelo desprendimento e não pela cristalização… A herança não é controlável, e é desconhecida. A poesia ajuda a desmanchar os nós da alma e a complexidade em memórias. É longo o caminho e curta a vida, para lá chegar. Mas atingiremos o Self, e venceremos a Sombra!

Grato, Carmen!

Bjs,

jj

Manuel da Rosalina disse...

Grato pelo seu comentário e pelo facto de minhas palavras, meu poema ter despertado sua lembrança à poesia de Cruz e Sousa!

Os variados universos, os micro e os macro cosmos, o mundo da matéria e dos sentidos, dos comportamentos, das leis da vida e da sobrevivência, o caminho e as transmutações e a evolução, os erros e a culpa, e o eterno galo, que canta à consciência, de quem um dia o queira ouvir…

bjs-poema,

jmj

Lisa Alves disse...

temos sempre que construir pontes por cima de tantos obstáculos. belas palavras